Muay Thai em 1910: o documento oficial que reconheceu três mestres regionais
Em 19 de junho de 1910, uma página do Royal Gazette , o periódico oficial do governo siamês.

Em 19 de junho de 1910, uma página do Royal Gazette, o periódico oficial do governo siamês, registrou algo especialmente relevante para a história do Muay: a concessão de títulos oficiais a três lutadores associados a diferentes cidades do reino.
O documento não é uma crônica escrita décadas depois, uma genealogia transmitida oralmente ou uma reconstrução contemporânea das tradições marciais tailandesas. Trata-se de um registro administrativo publicado durante o reinado de Chulalongkorn, Rama V, que identifica três homens, seus títulos e suas funções locais.
Mais importante ainda: o comunicado declara que a iniciativa tinha como objetivo preservar a arte do Muay nas cidades regionais, evitando que ela se deteriorasse ou desaparecesse.
A descoberta oferece uma referência documental concreta para investigar a relação entre as práticas regionais de combate e as políticas do Estado siamês no início do século XX.
O documento original

A página apresenta o cabeçalho แจ้งความกระทรวงมหาดไทย (Comunicado do Ministério do Interior). Na sequência, informa que, por determinação real, o Ministério deveria formalizar a nomeação de mestres de Muay nas cidades do reino.
O texto registra três nomes e seus respectivos títulos oficiais. É uma evidência importante porque permite observar como esses lutadores foram reconhecidos pela administração pública, para além das narrativas posteriores sobre suas habilidades e linhagens.
Os três lutadores e seus títulos oficiais
1. Prong — Muen Muay Mi Chue, de Chaiya
O documento identifica o primeiro lutador como นายปรง (Nai Prong) e registra o título:
หมื่นมวยมีชื่อ — Muen Muay Mi Chue
O título pode ser interpretado aproximadamente como “Muen, o boxeador de renome”. A tradução é aproximada, pois os títulos tradicionais siameses possuem convenções próprias e nem sempre correspondem literalmente a uma expressão moderna.
O comunicado associa Prong a Chaiya, na região sul do atual território tailandês, e lhe atribui um cargo especial no governo local.
Na historiografia moderna do Muay, esse homem é identificado com Prong Chamnongthong, conhecido por sua associação à tradição de Chaiya. Entretanto, a página oficial utiliza apenas o nome Prong. A correspondência entre o nome abreviado e o nome completo deve ser sustentada pelo cruzamento com outras fontes.
2. Kling — Muen Mue Maen Mat, de Lopburi
O segundo nome é นายกลึง (Nai Kling), que recebeu o título:
หมื่นมือแม่นหมัด — Muen Mue Maen Mat
A expressão está associada à precisão das mãos e dos punhos. Em traduções modernas, o título é frequentemente interpretado como uma referência ao lutador de mãos ou punhos certeiros.
O documento relaciona Kling à cidade de Lopburi, importante centro político e histórico do Sião. Também lhe atribui uma função especial na administração local.
Fontes posteriores identificam esse lutador como Kling Tos-a-at, figura associada à tradição moderna de Muay Lopburi. A identificação é coerente com a documentação retrospectiva, mas é importante observar que o nome completo não aparece na página 489.
O valor histórico do registro está justamente no que ele confirma diretamente: em 1910, um lutador chamado Kling recebeu um título oficial e foi associado ao governo local de Lopburi.
3. Daeng — Muen Changat Choeng Chok, de Korat
O terceiro lutador aparece como นายแดง (Nai Daeng) e recebeu o título:
หมื่นชงัดเชิงชก — Muen Changat Choeng Chok
O título está relacionado à habilidade ou destreza no combate de boxe. Como nos casos anteriores, sua tradução exata exige cuidado com o vocabulário dos títulos tradicionais siameses.
O comunicado associa Daeng a Nakhon Ratchasima, conhecida também como Korat, uma região estratégica do planalto de Khorat.
Na literatura moderna sobre Muay Korat, esse lutador é identificado como Daeng Thai Prasert. Mais uma vez, o documento oficial oferece o nome curto; a identificação completa depende da comparação com outras fontes.
Os três homens aparecem com o mesmo valor de sakdina, 300, indicador de posição na hierarquia social e administrativa do antigo Sião. O documento também lhes atribui cargos especiais nas respectivas cidades.
O objetivo declarado: preservar o Muay nas cidades regionais
O trecho mais significativo do comunicado é a finalidade atribuída à iniciativa ministerial:
ทำนุบำรุงวิชามวยตามหัวเมืองมิให้เสื่อมสูญ
Uma tradução aproximada seria:
“Promover e preservar a arte do Muay nas cidades regionais, para que não se deteriore nem desapareça.”
A frase merece atenção porque expressa uma preocupação institucional com a continuidade das práticas de combate fora do centro político.
Não se trata apenas de reconhecer três lutadores por suas habilidades individuais. O texto enquadra a nomeação como parte de uma iniciativa para preservar a arte do Muay nas cidades do reino.
Esse detalhe modifica a maneira como podemos interpretar o processo de formação do Muay Thai moderno. A relação entre o Estado e as práticas regionais não deve ser reduzida à ideia de que as tradições locais simplesmente desapareceram diante da padronização esportiva. O documento mostra, pelo menos neste caso, uma iniciativa oficial de reconhecimento e preservação.
Isso não significa que todas as tradições tenham recebido o mesmo tratamento, nem que a política tenha sido implementada de maneira uniforme. Significa que, em 1910, havia uma preocupação expressa em manter a arte do Muay nas cidades regionais.
O que o documento comprova e o que permanece em aberto
A força desta fonte está naquilo que ela registra diretamente.
Podemos afirmar que, em 1910:
o governo siamês publicou um ato de reconhecimento de três lutadores;
os homens foram associados a Chaiya, Lopburi e Nakhon Ratchasima;
cada um recebeu um título oficial e uma função administrativa especial;
o comunicado declarou o propósito de preservar a arte do Muay nas cidades regionais.
Mas a página não estabelece que esses três homens representassem todas as tradições existentes no reino. Tampouco prova que houvesse, naquele momento, uma classificação nacional formal composta exatamente por quatro estilos Chaiya, Korat, Lopburi e Tha Sao.
Também não demonstra que as técnicas atribuídas posteriormente a cada tradição fossem sistemas fechados, exclusivos ou imutáveis.
A distinção é essencial: um documento que confirma a nomeação de um mestre não confirma automaticamente toda a genealogia técnica que fontes posteriores lhe atribuem.
Por que Tha Sao não aparece?
A ausência de Tha Sao na página 489 suscita uma pergunta importante. Se o comunicado reconheceu mestres de Chaiya, Lopburi e Korat, por que não menciona um representante de Tha Sao?
A resposta não pode ser deduzida apenas desse documento.
É possível que o ato tivesse um escopo específico, que outros mestres tenham sido reconhecidos em outras circunstâncias ou que a tradição de Tha Sao não estivesse representada da mesma maneira nessa iniciativa administrativa. Essas possibilidades precisam ser investigadas em outros documentos.
A ausência de uma tradição em um registro específico não prova que ela não existisse. Ela apenas estabelece que não aparece naquele ato.
Essa cautela é especialmente importante para a pesquisa sobre Uttaradit, Phraya Phichai e a família Liang-Prasert. As genealogias regionais precisam ser confrontadas com os registros administrativos, sem pressupor que as classificações modernas correspondam diretamente à organização das práticas de combate no passado.
Uma fonte para repensar a formação do Muay Thai moderno
O documento de 1910 permite aproximar duas dimensões da história do Muay.
De um lado, temos os mestres, suas reputações e suas ligações com cidades específicas. De outro, encontramos o Estado, que atribui títulos, cargos e responsabilidades dentro de uma estrutura administrativa.
Essa relação oferece uma perspectiva mais complexa sobre a formação do Muay Thai moderno. Em vez de imaginar uma passagem simples de estilos antigos para um esporte nacional uniforme, podemos investigar como o reconhecimento oficial, a transmissão local e a organização esportiva se relacionaram ao longo do tempo.
O Royal Gazette não responde sozinho a todas essas perguntas. Mas fornece um ponto documental sólido a partir do qual podemos avançar.
A próxima etapa é localizar os pedidos administrativos que precederam a publicação, examinar os registros de competições de 1909 e 1910 e procurar atos semelhantes em outras regiões. Também será necessário investigar quando a classificação das quatro tradições regionais passou a ser apresentada como um conjunto.
Conclusão
A página 489 do Royal Gazette, publicada em 19 de junho de 1910, é uma fonte primária fundamental para nossa investigação. Ela registra os títulos concedidos a Prong, Kling e Daeng, associa esses homens a três cidades e declara expressamente o objetivo de preservar a arte do Muay nas regiões do reino.
Seu significado vai além dos nomes e títulos. O documento mostra que a preservação do Muay regional foi objeto de uma iniciativa administrativa durante o reinado de Rama V.
Ainda não podemos usar essa página para provar a existência de uma classificação formal de quatro estilos, nem para reconstruir integralmente as linhagens técnicas dos três lutadores. Mas podemos afirmar que o reconhecimento oficial de mestres regionais já estava documentado em 1910.
É a partir de registros como este — confrontados com fotografias, relatos, genealogias e outros documentos contemporâneos — que podemos reconstruir uma história do Muay Thai menos dependente de narrativas repetidas e mais apoiada em evidências verificáveis.
Referência documental
SIAM. Royal Gazette. Volume 27, p. 489, 19 de junho de R.S. 129 (1910). Comunicado do Ministério do Interior relativo à nomeação de mestres de Muay nas cidades regionais.